terça-feira, 13 de março de 2012

traças

Hidden mim,

'Ouça-me bem, amor

Preste atenção, o mundo é um moinho.

Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos.

Vai reduzir as ilusões a pó.'

Inversão dos valores.

Penso, pulso, a mente funde, fondue.

Palavras são vãs, vãos, vazio, refúgio!

Niilismo talvez, seja o status mais próximo da certeza!

Olha que, gosto de mim, apesar de você!

'O poeta é um fingidor', a beleza nisso se perdeu.

E com ela me perdi tão bem que não me encontro mais!

Tudo é uma questão de espelho, e provavelmente do que nele é refletido!

Inversão de valores.

Me sinto agora um robô,

driblando a rotina na tentativa de me pronunciar, em vão, entre vãos, dentre vãos.

Fugindo do tempo que não pára, voa.

Ao mesmo tempo em que nada se sente, e tudo parece se fazer frustrar!

Voltei a fumar, eu realmente gosto!

Não gosto deste lugar, isso realmente me incomoda!

'A humanidade é desumana' - já dizia Renato Russo - e me parece irreversível!

E é engraçado como ultimamente ouvir à Legião faz com que me sinta leve, como imagino que se sintam os gatos depois de um agradável rastelo.

Só não é melhor porquê não posso gritar, e mesmo que pudesse não conseguiria.

As traças de meu humor ecocardiogrâmico me limitam em atitudes extravagantes.

E as reticências me consomem antes que eu consiga chegar ao final de qualquer coisa.

Reticências e balões de diálogo vazios, falta de concordância e excesso de consumo.

Me falta oxigênio, acho que virei bolor.

Por um instante tudo fez sentido, mas continuei sem me encontrar!

Referências fazem de mim um corpo menos intransigente nessa maquete natural, protótipo de existência.

Ainda sinto uma pontinha de rancor, inversamente proporcional às minhas tentativas de seguir em frente.

Aí entra Tiê, e canta:

' Quem garante, que o que você é, é o que o outro espera de você?

Distante, o que você me diz do que eu sinto, não sei por quê?

Quem garante, que seguindo adiante eu possa enfim viver?

Sem me comparar,

sem entristecer,

sem tentar mudar,

sem poder entender.

Não dá, eu vou ter que sair pra poder voltar.'

E eu sorrio por um momento, antes de ser arrebatada pelo pânico!

'Serei ainda, livre?'

É nesse momento que tudo vai ao chão.

Referências me abastecem, e no final não sei quem sou!

Tudo soa realmente como a cópia, da cópia, da cópia.

Desfigura na minha frente, derrete como só Salvador Dalí sabia.

Inversão do show de Truman, sou a pequena câmera que observa os papéis sendo encenados no curta metragem da vida, e sentindo vontade de ter escrito todas essas micro-histórias que acontecem de forma totalmente diferente, se coubesse a mim.

Mas nada, no momento me cabe!
Nem mesmo eu!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

caiu


a adolescência caiu. do muro, do céu, caiu em lágrimas contando gotas nos meus olhos. tão efêmero foi. e tão fugazmente partiu. cresci. crescemos. ainda não absorvi. não haverá mais o nascer do sol com a esperança aquecendo junto ao primeiro raio amarelo do dia. o que um dia foi aquecido, os abraços. aqueles sorrisos de outrora cobertos de olhares brilhantes, cheios de contos, de vontades, de esperanças. o balanço musical e físico trazido pelo vento, o conforto de estar triste em um dia acinzentado. jaz a fotografia de multicores, o clichê bonito no ato de procrastinar. a beleza mais pura no simples ato de respirar, jaz. cresci, crescemos. tudo agora é jazz & blues, a i(n)di(e)ossincrasia se perdeu. os sonhos estabacam-se no concreto. se estapeiam com as nuvens que não são cinzentas de nostalgia mas sim negativas, radioativas e carregadas de problemas. nuvens que não são minhas, nem tuas, nem nossas, mas são de um coletivo, de todo um ecossistema degradado e perdido, anjo caído no vácuo do meu âmago e no lado negro da lua de todos. caí, cresci e adoeci. tentei por hoje apenas esboçar sinal vital. somos todos um, vide o planeta. vide o atual ecossistema falido e invertido tal qual meu próprio metabolismo. vide os sonhos partidos. vide ideologias desfalcadas e o tempo que passa e emperra. a tristeza e ódio que imperam sob os pulmões de nossa existência fadigada, sem brilho, sem garbo e sem sal. o amor asfixiado e desvalorizado, preso em grossas correntes no fundo do quintal. o grito de liberdade emperrado na garganta do universo. o sopro do vulcão adormecido que insiste em não se mover.

e eu continuo sentindo saudade... mesmo com Anacardium 30CH.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

referência



se perde e não mais se tem. um gato apanhando no saco, um cego trancado num quarto cheio de luz e sem objetos. mais do que as anteriores, um surdo envolto em inúmeras palavras. palavras são tudo o que vejo, sinto e odeio. e eu odeio. talvez nem seja ódio de raiva, talvez seja ódio de pena. existe? não sei. existo? também não sei. sei que odeio e que mastigo. mastigo e engulo a seco esse intelectualismo cansativo, essas palavras de isopor (o isopor que me desculpe, mas não é da melhor matéria-prima para as palavras). engulo a seco e respiro esse ar empoeirado e blasé. se antigamente não encaixava agora talvez já nem peça seja mais. e os tic-tacs do relógio também não são. e as cortinas sendo sopradas pelo vento também não. e você também não é, acredite. nem você nem os mensageiros dos ventos. nem eu e tampouco os filtros de sonhos. não consigo sentir mais nada além de um conforto assombroso. é confortável mas ao mesmo tempo assustador. assusta porque não é esse o dinamismo da existência, o conforto. para existir é preciso ser explorador, me parece. não dá pra ser feliz chegando em casa depois de um dia exaustivo e simplesmente tomando um banho, preparando um caldo quente, vestindo roupas confortáveis e se aconchegando no seio do lar. não quando se tem aulas pra preparar, não quando se tem conteúdo pra estudar, quando se tem comida pra fazer, pessoas a zelar e cuidar, academia pra frequentar, livros pra ler, amigos pra visitar, sem citar todo o lúdico que se perdeu. sem citar todo o eu que eu perdi. sem citar todo esse tudo que tenho que fazer, e deixo pra lá. isso é o que ocorre. a vida virou um "deixar pra lá", ir conforme o vento sopra. sem rumo, sem direção. e sem muita vontade também.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

rascunho sentimental


Será que a gente percebe a diferença entre um simples olhar e aquele olhar a mais?

Cabeça fervilhando de idéias, deve ser a correria que oxigena o cérebro, e as idéias descongestionam, desentopem, se movem tranquilamente pelo ar, pela vida, pelo espaço.

A menina que dá vontade de pegar no colo e dar café na cama anda sendo neutra, ligeiramente odiada também.

A menina que anda sendo neutra e ligeiramente odiada, embora fale porque já é adulta, não sabe conversar direito sobre certas coisas.

A menina que fala porque já é adulta e não sabe conversar direito sobre certas coisas também não sabe direito o que sente....

quarta-feira, 22 de junho de 2011

um domingo [não] qualquer

Vento frio em contraste com o sol brilhante.
Avenida calma em um domingo aparentemente agitado.
Estava em minha redoma de cristal, nave espacial da atualidade, com meus remédios, minha pouca estima e muita fragilidade. Também minha pequena e incômoda intolerância quando ela passou em frente à escola.Ela que brilhava como uma constelação atravessando a faixa de pedestre na companhia dele, que sequer fagulhava.
Mas ela brilhava, alegre, esguia... com a camiseta branca curta, aquele glamour blasé e despojado dos anos 70 que estão em revival novamente... com a enxuta silhueta restante coberta em preto, a saia alta, as meias de fio 40, as delicadas sapatilhas... como brilha, menina despojada em que vejo nitidamente as asas, e no respiro a vida que emana, que transpira, que canta em códigos binários, que dança a cada movimento do corpo, que pulsa e que bate.

Sinto vergonha perto de situações como essa, perto de gente assim.



" A luz negra de um destino cruel ilumina um teatro sem cor onde estou representando um papel de palhaço do amor.
Sempre só eu vivo procurando alguém, que sofra como eu também, mas não consigo achar ninguém.
Sempre só, e a vida vai seguindo assim, não tenho quem tem dó de mim, estou chegando ao fim. "
Nara Leão, Luz Negra

sexta-feira, 3 de junho de 2011

velho novo universo imerso [deja vú]


[da edição do anonimatozine nº 12, compilação de poemas de 2008]

Amigo

Amigo de todos,
amigo de ninguém.

Outrora,
amigo de alguém.

Inimizade porta afora,
porta adentro é refém.

Que fica quieto,
e sorri amarelo.

Na tentativa de disfarçar,
na tentativa de ser
e querer estar.

Amigo de todos,
amigo de ninguém.
Outrora, amigo de alguém.

Despreza o volume com antidefrissante.

terça-feira, 31 de maio de 2011

tolas reflexões


Que medo,
nós crescemos!
crescemos e roncamos,
crescemos e desaprendemos,
crescemos e encolhemos,
crescemos e engordamos,
crescemos e cremos cada vez mais em menos.

que medo!
nós amamos
e desiludimos.
odiamos
e partimos.
nos findamos
em brando ar.
asfixiados
pelo caminhar.

que medo
que amadurece!
que envelhece,
que apodrece,
que enfraquece.
nos deixa mudos,
nos deixa burros,
nos deixa turvos,
e sentimentais?

que medo
a embelezar,
que medo
a nos torturar!
qual liberdade a nos guiar?
que asas temos para voar?
Isopor, aço, metal, vidro,
vitaminas, crenças, soníferos, dígitos,
o sono, a tela, o vento, o sonho.

Que medo
da vida me levar!
que medo
do vento me soprar!
que medo
de desencarnar
e tão pouco concretizar.

Peço tempo ao tempo,
e paciência ao coração.