no solstício de inverno,
a noite mais longa do ano
cria tempo hábil pra respirar profundo
e abandonar as últimas folhas da estação.
tempo de recolhimento,
de introspecção,
de se aquecer no berço gélido-solar da impermanência
de hibernar na ação inativa
o ingresso em câncer evoca o afeto,
os círculos que aquecem e acolhem
o toque das pontas dos dedos desbravando a pele
as músicas que abraçam e a gravidade que dança meus quadris ritmados.
a lua minguante eclode as angústias,
as sombras,
as lágrimas fartas
e os afetos não retribuídos.
ano passado eu morri
até dias atrás eu vivi cheia de tenacidade e potência
estou morrendo denovo
junto com o inverno que nasce
junto com a lua que míngua.
me mato!
desmembro em mim tudo que não sou mais.
deixo a superfície pra trás
e admito o gosto por mergulhos profundos.
me descubro forte em tudo que me julgava fraca,
hoje onde me apontam defeitos eu me deito feito rainha.
afrontosa e fora da curva, como sempre fui.
sou passaro- gato
que renasce em suas inúmeras vidas,
inúmeras fases
todas as faces
da minha grandiosa
menina
que caminha pro desconhecido e além.
de olhos fechados
e sorriso no rosto
me rendo fatídica
ao ciclo vida-morte-vida
em toda sua urgência.
porque não quero mais viver
de ausência.
