terça-feira, 22 de junho de 2021

a queda

foi súbita,

repentina,

e sutilmente

traiçoeira.

só me restou olhar pra um ponto fixo enquanto toda a engenharia que invisívelmente trabalhava pra manter meu corpo vivo, desperto e estável perdia o controle por uma fração de segundo.

de repente a visão escureceu, o coração acelerou, um frio percorreu meu corpo de baixo pra cima.

com os olhos alerta e a respiração trancada, levantei trêmula e instável e fui ao banheiro. tirei máscara, molhei rosto, molhei nuca, me olhei no espelho.

imaginei meus gatos órfãos e sozinhos em casa, quem daria comida pra eles? 

me vi na mesa desfalecida, quando será que me perceberiam?

o grito entalado na garganta e o orgulho em pedir ajuda até desfalecendo, herança maldita, feitiço que não se quebra, mandinga das bravas.

imaginei sirenes de ambulância, girando, brilhando e gritando.

voltei pra cadeira que ocupo com medo, indefesa e sem controle. respirando em quatro tempos, a mão tremendo enquanto escrevo esse testamento sem herdeiro.

minha visão parece menos brilhante, menos nítida menos apurada.

não sinto meu pulso

mas formigar as pernas.

arrependimentos?

só do que não fiz, do que não me coube, e do que não dependia exclusivamente de mim.

conclusão? 

a gente tem que ter muito cuidado com o que deseja, como já diziam as pussicat dolls.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

moods

enquanto Thom canta Analyse 

lágrimas me tomam de assalto

uma tímida impulsividade pensa em jogar tudo pro alto

uma falsa sensação de controle me causa uma falsa impressão de poder qualquer coisa

o coração trepida

o estômago queima

a música muda pra "Daughter - Four Tet"

os ânimos acalmam

a previsão do tempo diz que vai fazer sol e 25 graus amanhã

eu lembro que vou ter férias emocionais e esboço um sorriso

mas logo em seguida lembro que vou ter problemas pra resolver no trabalho e volto a ficar sisuda

começa a tocar "slowdive - slomo" e me dá vontade de dirigir um conversível num dia de sol e pagar o resgate dos meus refúgios afetivos. 

tento elucidar algo além do sentir teorizado mas meus ombros estão tensos demais.

penso numa cafeteria pinterestizada que tem aqui na cidade, ela combina com esse som.

a cafeteria me lembra que preciso estar viva pra tomar a vacina.

a vacina me lembra que podem existir novos começos.

novos começos me levam a pensar que nada é permanente.

e começa a tocar "Aphex Twin - Flim", que me conecta com os noturnos de Chopin, que coloco pra tentar respirar em 4 tempos na intenção de dormir algo melhor do que as olheiras que não deixam mentir.

herança

a vida de um coração partido, corrompido e irrecuperável é fazer poesia de frases tristes e carregadas de desesperança. às vezes com ironia, às vezes com algum empoderamento. às vezes flamejante de tesão. às vezes pavio baixo de descrença.

tentei remendar, reparar, curar, cicatrizar. tentei outros corpos, outras bocas, outras mentes sagazes, outros malditos olhos. não deu.

eu pedi pra te esquecer aos nossos ancestrais que se cruzam em algum momento do nosso processo evolutivo, aos santos, a todas as entidades e divindades que meu pequeno conhecimento alcançam. acendi velas, fiz rituais, fiquei de joelhos, pedi dormindo e acordada. escrevi manifestos, evoquei banimentos, constelei, tirei tarô. não adiantou.

desisti de buscar. e de desistir. parei de me desafiar e me pressionar. resolvi aceitar que escolhi te amar. independente da tua não permissão. ciente de não ter a tua recíproca. minha maior obra de arte é esse amor não correspondido.

eu não estou fechada com você ignorando o resto do mundo. o meu sentir por você é o que me nutre com o que há de melhor na nossa humanidade falha. meu sentir por você é a água que resfria toda a raiva e ira que eu sinto por mim, pelo mundo e por todo o resto, exceto a música, os gatos e os amigos que conto em uma mão. 

eu gostaria de verdade que alguém novo aparecesse. eu gostaria realmente de ter a sensação de poder e controle sobre alguma coisa ou situação. mas não tenho. nem sobre o meu sentir. como boa submissa, só me resta ajoelhar, baixar a cabeça e acatar.

te disputar com a vida não é tão desesperador, porque não me impede de continuar te amando nos meus termos e condições. ainda assim, é assombroso saber que sua existência nesse plano ficou por um triz. você não me pertence, nem quero o contrário. meu sentimento cabe somente a mim e a ninguém mais, nem mesmo a você.

pensando por essa perspectiva, você deveria lamentar mais a minha ausência do que eu a sua.

mas pra você eu sou passado, uma face vultosa, palavras bem escritas e ignoradas. uma pequena provocação quando conveniente. o pedido de socorro indireto. a curva de rio. a insignificância. o escuro intranquilo e indesejável da noite.


e você tem razão. 

a faca e o queijo na mão. 

e o coração de uma menina estagnada no tempo.

primeiro de outubro, 2026

qual é a diferença entre potencial, expectativa e projeção? potencial, foi tudo que vi como possibilidade de se tornar. expectativa, o combu...