não quero ser aquela a dizer "bons tempos".
ser saudosista ou entusiasta do passado.
quero que minha vida seja tão boa quanto algum dia já foi.
lá fora chove
uma chuva amena
dessas que faz tempo que não acontece.
enquanto colocava o carro na garagem e fechava o portão, alguns fios de água que desciam pelo beiral do telhado me molhava e me peguei pensando: a quanto tempo não tomo chuva. eu adorava quando chovia. me molhar, molhar meus pés na água corrente. adorava quando acreditava com todo meu coração por um momento que se banhar de chuva era renovar as energias, se curar, se revitalizar.
depois de um tempo e certo adultescimento, sempre que chovia eu aproveitava para lavar o quintal. tirar o excesso de sujeira, de folhagem, embora no fundo o que eu queria mesmo era me renovar através dela.
quando passei a administrar locação, minha relação com a chuva, que era de muito amor e devoção, mudou.
como amantes brigadas, tomamos lados opostos. a chuva pra mim havia se tornado um grande problema. Será que pra ela eu teria virado um mal ou uma praga a ser combatida? fato foi que fui me afastando dela, me escondendo e sendo tomada por uma sensação de fadiga e de obrigacões chatas por causa dela, e ela por sua vez começou a ficar raivosa, volumosa, violenta e destruidora.
entramos em crise.
nossos corpos silenciosamente se afastaram.
e nossos ressentimentos fizeram de nós amargas.
mas hoje ela me tocou.
e como não acontecia a muito tempo, me afetou.
me acalmou.
me afagou.
me trouxe alento, frescor e paz.
chegou no fundo do meu âmago.
como a sonda que adentrou Saturno e atravessou tantas camadas de densidade, de poeira, e de desafios e chegou no centro. a chuva chegou no centro de mim e lá só encontrou amor e afeto.
fiquei calma.
respirei fundo.
consegui ouvi-la.
escutá-la
com atenção.
relaxei,
bocejei
e senti sono
um sono que há muito tempo não sentia.
e por um breve momento nos demos trégua.
e por um efêmero instante o passado ficou pra trás.
e esse momento presente foi uma das melhores coisas que vivi, dentro dessa fase longa, vasta e insignificante que se tornou minha vida.