quem é que acolhe nossos dias ruins, além da gente próprio?
por que sinto frequentemente reverberar entre as relações o querer somente de dar e receber o melhor?
considero que o melhor inclui também os dias mornos, nada extraordinários e difíceis, que inclusive compõem a maior parte da nossa vida.
somos pessoas ordinárias, comuns e pequenas em um vasto e exuberante universo.
temos nossos momentos de brilho e de explosão mas majoritariamente somos dolorosamente simples e sós.
e há muita beleza e riqueza na preciosidade de existir por inteiro no espaço-tempo.
não tenho acreditado em relações instagramáveis ou acordos de distanciamento em caso de ordinariedade.
procuro revelar e ver revelado mais do que corpos nus. que seja posto o próprio eu desnudo e despido de todo e qualquer artifício de conquista.
quero ser seduzida também pela podridão, pelo lado obscuro e crepuscular.
quero poder abraçar a estranheza dos defeitos e cicatrizes. me dar a oportunidade de vislumbrá-los para voluntariamente escolher admirá-los.
acolher e ser acolhida dos pés à cabeca, incluindo intestinos e excrementos, ruídos e roncos, desconforto e embaraço, fugas e distanciamentos.
quero mais do que entretenimento e distração. o desafio de ser potência pra ajudar a reconstruir das cinzas, levantar da cama, concluir projetos difíceis e maçantes, inspirar a retomada da canção. construir um pequeno império projetado e tolhido por diversas mãos.
estou pronta para acolher a inteireza do outro ser.
os dois lados da lua.
a violência eco e sistêmica dos nossos ancestrais.
dividir o peso que sobrecarrega costas, lombar e joelhos.
unir solidões em um corajoso ato de afeto e respeito pela vida e pela nossa espécie, psiquicamente em extinção.
não quero idolatrar santos empalhados e congelados no tempo ou na argila, mas contemplar toda santidade errante que nos habita. quero lamber lágrimas de sal, sangue das chagas e a poeira das dores trancafiadas nos confins dos segredos sórdidos e impronunciáveis.
não quero somente os dias de chuva lúdicos e bonitos ou as coincidências, afetos, gostos e gozos que unem corpos por fios temporários e múltiplos.
quero a outra metade do amor, aquela que todos desprezam. aquela que por tanto tempo, em mim mesma abandonei ou descreditei.