segunda-feira, 30 de outubro de 2023

em busca do meu querer.

 

quem é que acolhe nossos dias ruins, além da gente próprio? 

por que sinto frequentemente reverberar entre as relações o querer somente de dar e receber o melhor?

considero que o melhor inclui também os dias mornos, nada extraordinários e difíceis, que inclusive compõem a maior parte da nossa vida.

somos pessoas ordinárias, comuns e pequenas em um vasto e exuberante universo.

temos nossos momentos de brilho e de explosão mas majoritariamente somos dolorosamente simples e sós.

e há muita beleza e riqueza na preciosidade de existir por inteiro no espaço-tempo.

não tenho acreditado em relações instagramáveis ou acordos de distanciamento em caso de ordinariedade.

procuro revelar e ver revelado mais do que corpos nus. que seja posto o próprio eu desnudo e despido de todo e qualquer artifício de conquista.

quero ser seduzida também pela podridão, pelo lado obscuro e crepuscular. 

quero poder abraçar a estranheza dos defeitos e cicatrizes. me dar a oportunidade de vislumbrá-los para voluntariamente escolher admirá-los.

acolher e ser acolhida dos pés à cabeca, incluindo intestinos e excrementos, ruídos e roncos, desconforto e embaraço, fugas e distanciamentos.

quero mais do que entretenimento e distração. o desafio de ser potência pra ajudar a reconstruir das cinzas, levantar da cama, concluir projetos difíceis e maçantes, inspirar a retomada da canção. construir um pequeno império projetado e tolhido por diversas mãos.

estou pronta para acolher a inteireza do outro ser.

os dois lados da lua.

a violência eco e sistêmica dos nossos ancestrais.

dividir o peso que sobrecarrega costas, lombar e joelhos.

unir solidões em um corajoso ato de afeto e respeito pela vida e pela nossa espécie, psiquicamente em extinção.

não quero idolatrar santos empalhados e congelados no tempo ou na argila, mas contemplar toda santidade errante que nos habita. quero lamber  lágrimas de sal, sangue das chagas e a poeira das dores trancafiadas nos confins dos segredos sórdidos e impronunciáveis.

não quero somente os dias de chuva lúdicos e bonitos ou as coincidências, afetos, gostos e gozos que unem corpos por fios temporários e múltiplos.

quero a outra metade do amor, aquela que todos desprezam. aquela que por tanto tempo, em mim mesma abandonei ou descreditei.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

notas exóticas e complexas sobre mim perante um homem simples

a possibilidade de te consumar pode ser fatal, mortal e irreparável. 
sinto medo. 
eu sinto medo de tudo.
ainda assim, gosto de me atirar em queda livre. 

todos os estilhaços da queda me dilacera a pele. 
o atrito me machuca e me deforma.
deliro com todas as pulsões de morte mas não mais me limito a elas, consigo atravessar e acessar o pote de ouro que está além do arco íris.

com inabalável calma e vasta sabedoria, você extrai os gemidos e gargalhadas cristalizadas em mim.
me inspira a cantar alto em plenos pulmões. 
me dissocia do corpo-espelho pra me elevar à esfera divina.
fico reticente e tímida frente a mim mesma e frente a gigantesca possibilidade de potência que se coloca à minha frente.

oxigenou meu hipotálamo.
fez de mim leve e vazia feito um balão de gás hélio, que só flutua y flutua.
(e esse vazio tem um sentido gostoso, estado meditativo e de graça).
atordoada, tremo em ondas e luz sem intervenções mecânica ou sintética.
meu campo vibracional alcança escalas hiperdimensionadas, potentemente ativadas pela ponta da tua língua alucinógena.
o apetite se destranca do calabouço de mim com vontade de banho de sol e fotossíntese.
não sigo mais semáforos ou sinais convencionais pra trafegar pelas nuances da vida. sou a própria controladora de tráfego e agora são os transeuntes e os acessos que respondem ao meu comando

aos poucos, através de você diminuo e acalmo meus monstros. 
mansamente, dobro cada um deles perante si.
acho curioso que os diminua com tanta inteligência e articulação, sem fazer grande esforço e ainda fazendo graça, sem necessariamente desfazer deles. 
meus monstros parecem pequenas criaturas indefesas e infantis que na tua presença são abraçados, acolhidos e curados.
e eu, interlocutora dessas pequenas criaturas indomáveis, tenho oportunidade de transcender a animosidade desses seres famintos e alcançar o estado de deusa de mim, que sempre e tanto quis. 

gosto quando pega meu aparente excesso de afeto, o simplifica e faz dele algo humano e íntegro, não defeituoso ou exagerado. 
gosto quando não me resgata do caos, mas adentra o mesmo comigo, segurando minha mão. 
me dá um tesão de vida absurdo e gigantesco cada ocasião em que me acolhe e me dá essa sensação de não estar só, e de que posso confiar e apreciar a tão almejada e nada tediante paz. 

você me dá paz!
me desafia a buscar esse lugar, esse porto seguro. 
esse lugar onde posso chegar, tirar os sapatos apertados e me despir, jogar as chaves em cima da mesa, pendurar a fantasia pesada e orquestrada de tudo que por instinto ou defesa preciso representar. 
ser o demônio desprovido de beleza e vaidade fumando um cigarro na varanda sem o peso de uma existência inteira nas costas. 

não preciso agradecer. 
será que não? 
dizem que a gratidão é algo a ser colocado em prática constantemente. 
e genuinamente meu coração vibra esse sentimento e o contentamento de ter a oportunidade da tua presença materializada e manifesta. 
você é o que procurei por muito tempo, e minha gratidão parece pequena perto da indescritível sensação de ter te encontrado.

primeiro de outubro, 2026

qual é a diferença entre potencial, expectativa e projeção? potencial, foi tudo que vi como possibilidade de se tornar. expectativa, o combu...