ah, presenciá-lo dormindo, nas primeiras horas da manhã.
que visão linda.
o corpo alvo e esguio completamente desnudo e indefeso recebendo os primeiros espectros de luz do alvorecer.
o contorno preciso e bem desenhado sendo banhado pelo início de um novo dia de temperaturas mínimas já elevadas mas ainda com um frescor bonito e gostoso.
seu falo róseo e lindo, repousado no colchão.
as delicadas pigmentações em forma de constelações que habitam a galáxia das suas costas.
o pescoço alongado e frequentemente beijado pelo sol.
o cabelo abundante preso e os pequenos fios dourados invadindo a face.
o cheiro complexo, tão rico, peculiar e cheio de si, de mim, das cinzas nicotinadas, da atmosfera do planeta, do suor, do vento seco e dos outros corpos que habitaram e habitarão teu espaço na ausência do meu corpo.
minha contemplação matinal é singela, contida e diferente do que usufruímos a dois.
é um sorriso singelo de canto a canto da boca, encantada feito criança com a descoberta de algo tão único e tão belo.
é a adrenalina de ter passe livre para desfrutar do corpo, feito quem recebe nas mãos algo tão precioso a ponto de não saber o que fazer, ficando perdida entre maravilhamento, medo e deleite.
é a sensação de completude em fumar um cigarro no sofá sabendo que ele repousa a uma parede de distância de mim.
é o conforto de sentir acolhimento e identificação em uma casa e um corpo que não são meus e não me pertencem mas que voluntariamente tem me convidado a fazer parte do cenário, da mobília, do espaço e do desejo.
tudo é tão superlativo e exacerbado em mim que sinto vontade de dizer que amo.
mas no fundo, sei que não se trata disso.
não tenho maturidade suficiente para amá-lo, porque não consigo, ainda, desejar a felicidade dele independente de mim.
meu egoísmo me faz querer ser parte do que posso não conseguir oferecer ou suprir.
e concluo que o amor que sinto é por mim e pela pessoa que me torno quando outro alguém me inspira.