terça-feira, 26 de outubro de 2021

na ampulheta

 


éramos areia, 

separados pelo vão que nos dividia em nossas âmbulas distópicas.

você ama o ciclo vicioso.

eu amo você. 

nobody loves me. 

amo vermelho mas cansei daquela luz indecente. 

quase fui embora descrente da gente,

 mas como sempre eu não consigo te abandonar.

nunca!

na liquidez da modernidade e na efemeridade das relações, estou solidamente comprometida com você.

sempre vou ser um satélite orbitando em torno do teu eixo, equalizando suas águas e mantendo seu aterramento telúrico.

sigo solitária e polivalente no fluxo magnético e repulsivo dos nossos corpos dolorosamente rastejantes.

sinto que não caibo na tua vida e menos ainda no teu escapismo.

e se você não quiser sofrer, continue não me amando.

eu posso seguir fazendo isso por nós dois

até que meu luto cesse.


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

das cinzas

 


minha intuição foi liberada do cativeiro com o gozo represado. 

tenho olhos vorazes e o terceiro olho atento, visualizando o espaço tempo líquido cheio de ondas, tremor e luz. 

te perdi e encontrei tantas vezes, que não sei dizer o que restou além do teu sorriso justificando a barreira intransponível que toda doação e entrega se limita em atravessar.

elucidando que a cura reside onde antes foi fogo e hoje é água e nos afetos que carregamos até o trajeto onde bifurcamos.

 nossos desejos podem ser iniciados e explorados, mas não necessariamente resolvidos.

e todos os caminhos nos conduzem ao mesmo lugar desconexo, onde palavras falam mas teus olhos não brilham de volta pra mim.


sexta-feira, 22 de outubro de 2021

resgate

um abismo chamado desejo me convoca a um exercício de entrega.

olhar no fundo dos olhos do vazio, como em uma performance de Marina Abramović.

entender o que decanta lá no fundo, pra trazer pro encanto da superficie.

não há sentido nenhum em afeto unilateral, absolutamente nenhum.

só provas de desamor e desafeto, e não quero mais gostar sozinha.

o que quero é a conversão da versão forte e dramática de Urias em "você me vira a cabeça" pra solaridade da Marina Sena em "Por supuesto".

" meu sonho feliz era chegar e já cair no mar ".

pra cair no mar, eu preciso que ele me permita, me aceite e me receba de águas abertas.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

encore 2

 


nada vai

nada vem

tudo mal

e tudo bem

nauseante

e repugnante

desamor

armado

cansei de dado viciado

afeto negado

violência imposta

convite deposto

cansei de você

impregnado sem porque 

e sem querer 

em mim

encore 1

 


consegui a brisa, me livrei da bad

não dilataram as pupilas, pode ser placebo? 

ela acha que é. 

que será que vai se revelar no revolver mental do meu coração fisicamente sadio, metaforicamente desordenado?

a recíproca provocativa é verdadeira.


no ápice da lunação

 


os anseios, quem resolve?

a luz, quem reveste?

a ânsia do outro é escuridão?

tenho gosto de erva queimada na boca e cheiro de vulva nos dedos. a diversão hoje começou cedo.

a noite não é criança, é idosa que dorme cedo ansiando pelo sonho que reside na lembrança que ovulou por antecipação.

o hipotálamo hiperestimulado superaqueceu. ansiosa pelo breu vou dormir de cabelo frio, sujo e aglomerada com cobertas, no luxo de participar rendida de um sistema que venceu.

brisa errada

 


enquanto numa praça

vejo idosos

agasalhados 

em frente suas casas

sinto gastura e desespero

o tempo está passando

e as ancas não serão fortes

nem as articulações maleáveis

para sempre.

domingo, 17 de outubro de 2021

o reencontro - parte 1

 



estávamos no meu quarto em uma conversa amistosa. era a primeira vez que ele adentrava meu universo. eu o via observar atento os quadros e fotos na parede, os livros e filmes na estante. observava minha pilha de roupas e curiosamente pegava algumas peças pra cheirar enquanto conversávamos, ele de pé e eu na cama. 

ele decidia sair e me convidava pra acompanhá-lo - um dos tudos que eu tanto queria dele. pegava fracionadamente pelo quarto as roupas que ia vestir. algumas na gaveta, outras já espalhadas na pilha das roupas da semana. elegi pra ocasião blusa preta, saia magenta, meia arrastão e minhas melhores peças íntimas - vai que, né? compartilhávamos dessa troca intimamente e desse arco sedutor com a porta do meu quarto entreaberta. 

eu não estava banhada e dizia a ele que trocaria somente de roupa, e se ele se importaria da troca ali mesmo. estava confiante porque havia ficado seminua por duas vezes no mesmo dia, pra consultas de rotina, e por incrível que pareça meu pudor estava totalmente desmoralizado e sem espaço naquele ambiente. ele me sinalizava pra seguir em frente, enquanto conversávamos olho no olho.  

trocava primeiramente a parte de cima. colocava o sutiã pela frente e pedia pra que ele fechasse, que ele fazia gentilmente e sem grande malícia, dando início aos toques com as mãos leves e quentes nas minhas costas e o nariz levemente tocando meu pescoço. 

vestia blusa e saia e tirava a minha peça íntima pra trocar, quando ele me pediu pra parar e se podia me tocar. eu o adverti novamente que não estava banhada mas ele queria sentir meu corpo. eu replicava dizendo que tudo o que queria era sentir o corpo dele no meu mais uma vez. ele colocava gentilmente os dedos por entre minhas pernas, tocando minhas genitais e explorando meus pêlos. meu coração disparou e senti que podia desaguar intensamente com essa pequena mas potente iniciação.

o calor sobe e nossas respirações ditam o compasso do tempo. interrompo, peço licença e vou ao banheiro. faço uma pequena higiene e retorno pedindo que ele veja a diferença, que julga insignificante, preferindo fluídos e cheiros naturais. pergunto se ele usa método de barreira, visto que eu utilizo métodos não hormonais e ele alega que sim. insisto se ele utiliza até o fim ou se retira durante o ato, prática da qual já fui vitimada anteriormente. ele me garante que posso confiar - e eu confio, de olhos abertos e fechados. como estou na fase folicular indico que não estamos no momento mais apropriado pra aprofundar nossa troca em alguns aspectos.

mudo um pouco o rumo da conversa e tento entender quem estava numa foto que ele me enviou. ele diz que é um colega com quem tem altos e baixos e que ali ambos desfrutavam de um bom momento de trégua e tranquilidade. 

vestindo a nova e limpa peça íntima, pergunto se quer ver. ele pede pra que eu guarde pra depois, e confessa sua intenção de me ver desnudando o corpo inteiro. coloco então a meia arrastão e o coturno e finalizando a vestimenta digo a ele que tenho algumas condições pra que algo possa acontecer entre a gente, além da minha condição hormonal: que não seja rápido e que no que não der certo ele me seja sincero. 

eu tinha plena consciência de que nosso envolvimento - se acontecesse - seria fugaz e efêmero, ainda que toda uma intensidade absurda se aposse dos nossos corpos desde sempre.

compreendia ali e em tudo o que me cercava o ciclo vida-morte-vida citado por Clarissa Pinkóla Estés na fábula da mulher esqueleto. mas por experiência própria sabia também que o estágio de morte doeria demais, porque já havia passado por isso antes. ainda assim estava disposta a arriscar. enquanto ele tinha os próprios vícios, eu não tinha nenhum outro porque meu vício era ele. 

meu argumento pra prolongar o ato e não explodi-lo de imediato consistia em irradiar o ápice do tesão e estende-lo o quanto fosse possível. o acordo era ficarmos inebriados naquela energia que inunda o corpo e pede por mais e você não dá. aquela sensação orgástica que beira ao precipício e sofre com o passo que não consegue avançar, com o estímulo final que não chega e te contorce e deixa em cólicas e êxtase.

é de certa forma sádico, eu sei, mas pulsante e vivo, isso é inegável. e tudo que a gente se propõs, de comum acordo e independente de certo ou errado, foi viver essa intensidade. 

eu beijo então de leve seus lábios e saímos.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

tempus fugit

 


a vida não rebobina

e eu quero não acordar

dormir até o sono acabar

o triste em morrer 

é não saber se se dorme

ou se vive acordado 

numa outra dimensão

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

o caminho errado

 


refletindo acerca de romantização e idealizações, me localizo na descoberta de uma obsessão irrefreável.

nunca foi amor, mas carência e treva sem pavio de vela que ilumine essa cela aberta, onde me aprisiono. 

a chance do reencontro jaz moribunda e embargada na impossibilidade de um passado embriagado.

nesse paralelo, entre tantas possibilidades, existo sóbria e só. 

uma pena. 

porque há vida pra ser vivida e a mesma se desperdiça por opção enquanto tantas milhares ceifadas por incontáveis eventos não desfrutam dessa sorte / dessa escolha ou desse acaso. 

isso pesa!

é um desperdício corpos sadios tão anestesiados e distanciados.

e triste lidar com a ausência de presença, que me faz tanta falta todos os dias.

com o mundo desabando sob todas as cabeças, eu só queria uma pequena experiência significativa de afeto, enquanto sigo ainda capaz de sentir alguma coisa em paralelo aos sentidos e sentires que se desobrigam de mim e se dissipam através dos ventos e dos meus lamentos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

perdão (a reconstrução do afeto)

 

arte de @_kallenmikel - Divine sisterhood moonflower


lua nova

vela rosa

mãe

corpo que sustenta

tudo o que me rege

e guia

à nina

à vida

agradeço

e só peço

que acalme meu coração

e meus humores

resfrie

toda a raiva

dissolva

os dissabores

me revele 

plena

e 

pélvica

pro mundo que eu mereço ter

e pra pessoa que eu desejo estar. 

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

do vício em odiar

 


na ausência sofro de mim.

na presença devoro o mundo.

através eu compreendo tudo,

especialmente irrelevância

e ignorância.


rejeição quando criança,

abuso quando infância.

gostosa quando cresce,

inútil quando envelhece.


descontinuada, 

obsoleta e descartada quando perde o jogo, 

o prumo e a razão.


vai trabalhar, menina

você não nasceu pra revolução.

ou andar pelas ruas de mãos dadas, 

armada de si.


cresce, garota.

que o sonho é piada falha

onde só você não ri.


não te ponha indefesa,

ninguém quer a tua cabeça.

de graça ou pagando,

desista do teu plano.


a felicidade virou miragem

menor que gota de oceano.

isca que não alimenta humano,

farsa que não sacia tanto.


e ninguém além de você,

tolera esse bendito desencanto.



domingo, 3 de outubro de 2021

faceless ghost

  


não cabe imagem

em lembrança discutível.


não cabe memória

no vazio perceptível.


não cabe existir 

na falta de espaço.


não cabe singularidade

em jogo sádico.


não cabe defesa

pra ré confessa e confusa.


não cabe tentar

o que já deu errado.


cabe esquecer 

o que nem deveria ser lembrado.


 que não existe você

no meu álbum, 

ou porta retrato.


armadilha

 



acuada

e vulnerável 

me encurralei

feito presa.

contra fatos não há argumentos, somente consequências.

na humildade de quem reconhece a fraqueza  me retiro do recinto.

ressentida por me ver repetindo um padrão, baixando uma guarda que não deveria ter deixado. 

eu guardo cicatrizes até hoje de quando isso aconteceu pela última vez. e como tempo quando anuncia que vai chover, elas estão doendo. 

dói essa homogeneidade, 

esse ser indissociável, 

essa falha contínua,

essa coisa única e previsível. 

volta novamente a doer muito ser eu. 


 {Pra ouvir: "All across the world"}

 {Silverchair}

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

ideias não compartilhadas

 


algo que te entretenha nessa sexta-feira de leve chuva?

eu tenho um sanduíche de atum, que como sem grande vontade. um suco de laranja pêra servido em uma taça gigante de gin cheia de gelo. "O segredo dos seus olhos" na televisão. gatos aninhados a meus pés. meu pé esquerdo sofre uma leve cãimbra. algum filme do Lust Cinema pra mais tarde, se bater vontade.

por que não estou bebendo?

simples. 

não quero beber em virtude da tristeza, de desesperança ou do vazio. quero beber pra comemorar, celebrar algo pelo qual meu coração bata novamente.

tem alguns dias que sonho insistentemente com beijo. beijo de outro, beijos que já foram bons mas que na atual conjuntura estão ruins, desagradáveis, desprazerosos. como o leite da minha mãe quando salgou e me fez perder o desejo pelo peito, anunciando a chegada da minha irmã e a destituição do meu lugar até então único e dominante no universo que me circundava.

sonho também com colo. que estou sentada no colo de alguém que desejo tanto a ponto de não conseguir admitir. como nos velhos tempos, uma sentada de frente, que permite olho no olho, arrepios na nuca, pegada de cabelo, mordidinhas leves. que permite aconchego no seio, pernas que vibram. o peso dos corpos densos. mãos bobas abaixo da cintura.

bom motivo pra comemorar,

se fosse real.

primeiro de outubro, 2026

qual é a diferença entre potencial, expectativa e projeção? potencial, foi tudo que vi como possibilidade de se tornar. expectativa, o combu...