estávamos no meu quarto em uma conversa amistosa. era a primeira vez que ele adentrava meu universo. eu o via observar atento os quadros e fotos na parede, os livros e filmes na estante. observava minha pilha de roupas e curiosamente pegava algumas peças pra cheirar enquanto conversávamos, ele de pé e eu na cama.
ele decidia sair e me convidava pra acompanhá-lo - um dos tudos que eu tanto queria dele. pegava fracionadamente pelo quarto as roupas que ia vestir. algumas na gaveta, outras já espalhadas na pilha das roupas da semana. elegi pra ocasião blusa preta, saia magenta, meia arrastão e minhas melhores peças íntimas - vai que, né? compartilhávamos dessa troca intimamente e desse arco sedutor com a porta do meu quarto entreaberta.
eu não estava banhada e dizia a ele que trocaria somente de roupa, e se ele se importaria da troca ali mesmo. estava confiante porque havia ficado seminua por duas vezes no mesmo dia, pra consultas de rotina, e por incrível que pareça meu pudor estava totalmente desmoralizado e sem espaço naquele ambiente. ele me sinalizava pra seguir em frente, enquanto conversávamos olho no olho.
trocava primeiramente a parte de cima. colocava o sutiã pela frente e pedia pra que ele fechasse, que ele fazia gentilmente e sem grande malícia, dando início aos toques com as mãos leves e quentes nas minhas costas e o nariz levemente tocando meu pescoço.
vestia blusa e saia e tirava a minha peça íntima pra trocar, quando ele me pediu pra parar e se podia me tocar. eu o adverti novamente que não estava banhada mas ele queria sentir meu corpo. eu replicava dizendo que tudo o que queria era sentir o corpo dele no meu mais uma vez. ele colocava gentilmente os dedos por entre minhas pernas, tocando minhas genitais e explorando meus pêlos. meu coração disparou e senti que podia desaguar intensamente com essa pequena mas potente iniciação.
o calor sobe e nossas respirações ditam o compasso do tempo. interrompo, peço licença e vou ao banheiro. faço uma pequena higiene e retorno pedindo que ele veja a diferença, que julga insignificante, preferindo fluídos e cheiros naturais. pergunto se ele usa método de barreira, visto que eu utilizo métodos não hormonais e ele alega que sim. insisto se ele utiliza até o fim ou se retira durante o ato, prática da qual já fui vitimada anteriormente. ele me garante que posso confiar - e eu confio, de olhos abertos e fechados. como estou na fase folicular indico que não estamos no momento mais apropriado pra aprofundar nossa troca em alguns aspectos.
mudo um pouco o rumo da conversa e tento entender quem estava numa foto que ele me enviou. ele diz que é um colega com quem tem altos e baixos e que ali ambos desfrutavam de um bom momento de trégua e tranquilidade.
vestindo a nova e limpa peça íntima, pergunto se quer ver. ele pede pra que eu guarde pra depois, e confessa sua intenção de me ver desnudando o corpo inteiro. coloco então a meia arrastão e o coturno e finalizando a vestimenta digo a ele que tenho algumas condições pra que algo possa acontecer entre a gente, além da minha condição hormonal: que não seja rápido e que no que não der certo ele me seja sincero.
eu tinha plena consciência de que nosso envolvimento - se acontecesse - seria fugaz e efêmero, ainda que toda uma intensidade absurda se aposse dos nossos corpos desde sempre.
compreendia ali e em tudo o que me cercava o ciclo vida-morte-vida citado por Clarissa Pinkóla Estés na fábula da mulher esqueleto. mas por experiência própria sabia também que o estágio de morte doeria demais, porque já havia passado por isso antes. ainda assim estava disposta a arriscar. enquanto ele tinha os próprios vícios, eu não tinha nenhum outro porque meu vício era ele.
meu argumento pra prolongar o ato e não explodi-lo de imediato consistia em irradiar o ápice do tesão e estende-lo o quanto fosse possível. o acordo era ficarmos inebriados naquela energia que inunda o corpo e pede por mais e você não dá. aquela sensação orgástica que beira ao precipício e sofre com o passo que não consegue avançar, com o estímulo final que não chega e te contorce e deixa em cólicas e êxtase.
é de certa forma sádico, eu sei, mas pulsante e vivo, isso é inegável. e tudo que a gente se propõs, de comum acordo e independente de certo ou errado, foi viver essa intensidade.
eu beijo então de leve seus lábios e saímos.