quarta-feira, 16 de setembro de 2020

pequenas ignorâncias e narrativas bio-poéticas

 


quisera ser externamente enigmática quando imersa na vastidão do meu universo particular. 

" é sempre bom lembrar, que um copo vazio está cheio de ar " como diz o sábio Gil. 

mudança de perspectiva considerável no proveito da análise aplicada com esmero. no meu entendimento, de acordo com Stephen Hawkins, não existe um Deus-criador porque não há nada antes do Big Bang, dando exemplo de um relógio em direção a um buraco negro, onde quanto mais próximo, menos acelerado o tempo, até que se torne inexistente. 

com isso tive duas questões: 

1 - quando um relógio pára, ficamos suspensos no tempo-espaço e deixamos de ser, como ele? 

2 - baseada em minha própria experiência, conforme a idade avança, a impressão é de que o tempo acelera. neste caso então de qual buraco negro estou me distanciando? 

me vejo representada na simbologia de um triângulo aberto "/\" e é como se tivesse nesse momento no pé da segunda linha, em decrescente ou decompoente, retornando ao ponto de origem, como se o ápice do meu existir tivesse acontecido em eras já remotas nessa passagem do tempo onde sou testemunha ocular.

o corpo que ocupo tem espaço e permissão para ser o que se propõe por si próprio, não mais por mim ou o que dita meu desejo. o deixo ser como uma casa inabitada, que passa a ser reverenciada por raízes adentrando sulcos e rachaduras, se convertendo em folhas rasteiras nos assoalhos e galhos pendentes nos telhados.

posso ser também papel, tela ou argila. 

o cabelo cresce indomável com cachos se formando pro alto, estendendo seus braços-fios em tentativa de tocar a face da grande mãe pra receber o afago nunca tido antes.

sobrancelhas se modelam em mim a gosto próprio. unhas e pêlos reabitam meu corpo. nas pernas algumas falhas, certos pêlos se recusam. talvez tenham debandado ou morrido, quem sabe? talvez tenham cortado relações ou tido seu território desertado ou tomado de assalto? 

percebo e permito todas essas interações, não estranhas mas incomuns. busco interagir com elas. não brigo, nem me imponho ou tento mudá-las. acho necessário me deixar explorar por esse formato e me nutrir desse afeto do que escolhe germinar no bioma ainda fértil que é esse corpo curioso. imagino nele ainda ocupado por mim - sua consciência interlocutora - ausências abismais e células que não se renovam mais. neurônios e circuitos que viram poeira estelar no miniverso que sustenta minha coluna. pele que estica e não volta. órgãos em meia vida ou deteriorados. o peso que pesa e não alivia ou se torna leve. 

no que me cabe busco renovar, entender, criar e maternar. no momento atual disponho dos privilégios de me encantar de vez em quando e problematizar de vez em sempre.

duelo constantemente com limitações, pleiteando maior espaço e melhores condições de existir e cocriar essa vida-presente que em um leve fade vai se desfazendo na ausência como lugar comum a cada respiro, me guiando à obsolescência programada desse corpo sem salvaguarda.

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