sexta-feira, 30 de outubro de 2020

desfragmentando

 


eu universa

habitada com incontáveis vias lácteas

envolta em espuma

se promovendo afeto

se percebendo gente no toque da pele

e realinhando através da planta dos pés.


você que me lê, 

sabe quem eu sou tanto quanto eu

ou até mais do que muitos que convivem comigo

você me olha, mas você me vê?


de olhos míopes e cerrados, tento te enxergar enquanto me escondo

atrás de plumas ou bolhas de sabão

atrás de um não sorriso ou do carão sempre acertado

atrás das tarjas nos olhos e boca e debaixo dos meus recortes que revelam tanto, mas escondem muito mais.


por entre frestas

peço socorro.

me atiro no mundo 

feito isca em mar aberto

buscando fisgar atenção 

pra isso sei que quero estar certa, 

quero ter razão.


quero ter controle e ciência de mim.

não quero te ferir, como um anzol.

me contento em morrer pra te alimentar sendo peixe.

me revelar completa, além metáforas.

deixando de dar referências pra que você me entenda.


e talvez meu propósito se cumprisse se eu fosse essência a aromatizar seu ambiente, te abraçando sem tocar sua pele. 

afagando sua memória e tirando um sorriso sem esforço. 

te inspirando a evocar os mais belos e efêmeros desejos e vivências. 


talvez eu só tenha nascido pra ser invisível. 

ser essência não em alma, mas em aroma. 

ser afeto sutil e não ser corpo. 

ser memória e não ser presença. 


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