sexta-feira, 2 de abril de 2021

onde a vida acontece




sonhei com ele. sabemos bem, muito bem quem esse ele é. não é preciso dar nome aos boys.

de um jeito que o inconsciente não revelou, fui parar em sua casa. seu pai - que na vida real não me conhece - me via no quintal e convidava a entrar. educadamente, eu agradecia e pedia um tempo pra me preparar. 

logo em seguida eu via a janela do quarto, e enquanto me aproximava dela, ia sendo tomada de assalto pelas lembranças do dia em que tivemos ali juntos, na ainda mesma cama de solteiro onde brincamos com nossos corpos nus em plena luz do dia. 

lembro da tensão, da insegurança e da vulnerabilidade que me cercavam e do desejo e paixão que eram arrebatadores e me davam a coragem necessária pra me entregar e confiar a ele. 

eu era imatura e continuo sendo. ele era problemático, emblemático, potente e ao mesmo tempo frágil e incapaz de controlar diversas coisas sobre si - acho que nesse ponto hoje ele deve ter melhorado. não sei, não mantemos contato. mas espero que sim. 

meu físico era inegável e invejável naquela época, embora eu não enchergasse (e nunca sei se enchergar é com "x" ou "ch" e isso me irrita). nesse flashback foi interessante olhar pro meu eu do passado e ver que estava bem. hoje eu lido melhor com a nudez do que naqueles dias, embora a falta de visão (ou visão exagerada) sobre meu corpo continue a mesma: nunca sendo bom o suficiente e comigo o habitando, menos ainda.

retomo a lucidez no sonho com a escuridão do cenário em que estou prostrada em frente a janela dividida entre esse agora inexistente e o passado, onde na cama repousa um anjo com a inocência de provar de um mundo com infinitas possibilidades em seus olhinhos fechados. 

divago novamente, questionando dessa vez por que é tão bonito admirar alguém que dorme de um sonho e tão triste ver alguém que dorme da morte. 

morte, a despedida repentina. que muitas vezes não avisa e não prepara pra um último abraço. p'ras palavras represadas. p'ros sorrisos e desejos de bons ventos e presságios. que não permite usar sua roupa favorita. que não concede um último olho-no-olho. 

mais uma vez me situo, dessa vez com a sensação de estar sendo observada. o quarto está escuro. o quintal está escuro. é noite. próximo da porta aberta tem luz. nessa luz eu finalmente o reencontro, encarando sua silhueta vultosa até encontrar seus tão admirados olhos que zela com cuidado o anjo que dorme. a definição é melindrosa e dramática mas tudo acontece muito rápido. ele veste branco e amarelo - o que acho curioso - antes de me esconder mergulhando no escuro de vez. 

o jogo, tão típico e tão nosso. 

ele vai até a janela mas não consegue me ver e sai de cena. meu coração bate, as mãos ficam geladas, a pele eriça toda. me movimento como uma presa que sente estar em perigo. olho ao redor antes de dar qualquer passo. e não percebo que ele está em vantagem e me observa do fundo do corredor. é o mesmo mas é outro. parece mais novo, está mais jovial. agora veste branco e um jeans escuro com um detalhe amarelo na barra da calça - novamente, por que amarelo?. 

ele me surpreende como quem quer alguma satisfação, e joga no ar uma irônica surpresa em me ver - típico dele. 

encurralada, tímida e de olhos arregalados, digo que estou por ali fumando um cigarro, e como que desmascarada pelo meu subconsciente, meu cigarro vira uma barra de sabão de coco que levo à boca como se tivesse fumando. fico mentalmente confusa e com a sensação de ter perdido o controle perante ele - é verdade onírica esse bilete -. 

soberbo, ele dá a entender que não fuma mais e nem perde o controle. eu concluo antes de acordar pra vida que o jogo virou. e lembro que da última vez que nos encontramos por acaso a alguns anos eu realmente parecia bem melhor do que estou atualmente.

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