terça-feira, 22 de junho de 2021

a queda

foi súbita,

repentina,

e sutilmente

traiçoeira.

só me restou olhar pra um ponto fixo enquanto toda a engenharia que invisívelmente trabalhava pra manter meu corpo vivo, desperto e estável perdia o controle por uma fração de segundo.

de repente a visão escureceu, o coração acelerou, um frio percorreu meu corpo de baixo pra cima.

com os olhos alerta e a respiração trancada, levantei trêmula e instável e fui ao banheiro. tirei máscara, molhei rosto, molhei nuca, me olhei no espelho.

imaginei meus gatos órfãos e sozinhos em casa, quem daria comida pra eles? 

me vi na mesa desfalecida, quando será que me perceberiam?

o grito entalado na garganta e o orgulho em pedir ajuda até desfalecendo, herança maldita, feitiço que não se quebra, mandinga das bravas.

imaginei sirenes de ambulância, girando, brilhando e gritando.

voltei pra cadeira que ocupo com medo, indefesa e sem controle. respirando em quatro tempos, a mão tremendo enquanto escrevo esse testamento sem herdeiro.

minha visão parece menos brilhante, menos nítida menos apurada.

não sinto meu pulso

mas formigar as pernas.

arrependimentos?

só do que não fiz, do que não me coube, e do que não dependia exclusivamente de mim.

conclusão? 

a gente tem que ter muito cuidado com o que deseja, como já diziam as pussicat dolls.

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