a vida de um coração partido, corrompido e irrecuperável é fazer poesia de frases tristes e carregadas de desesperança. às vezes com ironia, às vezes com algum empoderamento. às vezes flamejante de tesão. às vezes pavio baixo de descrença.
tentei remendar, reparar, curar, cicatrizar. tentei outros corpos, outras bocas, outras mentes sagazes, outros malditos olhos. não deu.
eu pedi pra te esquecer aos nossos ancestrais que se cruzam em algum momento do nosso processo evolutivo, aos santos, a todas as entidades e divindades que meu pequeno conhecimento alcançam. acendi velas, fiz rituais, fiquei de joelhos, pedi dormindo e acordada. escrevi manifestos, evoquei banimentos, constelei, tirei tarô. não adiantou.
desisti de buscar. e de desistir. parei de me desafiar e me pressionar. resolvi aceitar que escolhi te amar. independente da tua não permissão. ciente de não ter a tua recíproca. minha maior obra de arte é esse amor não correspondido.
eu não estou fechada com você ignorando o resto do mundo. o meu sentir por você é o que me nutre com o que há de melhor na nossa humanidade falha. meu sentir por você é a água que resfria toda a raiva e ira que eu sinto por mim, pelo mundo e por todo o resto, exceto a música, os gatos e os amigos que conto em uma mão.
eu gostaria de verdade que alguém novo aparecesse. eu gostaria realmente de ter a sensação de poder e controle sobre alguma coisa ou situação. mas não tenho. nem sobre o meu sentir. como boa submissa, só me resta ajoelhar, baixar a cabeça e acatar.
te disputar com a vida não é tão desesperador, porque não me impede de continuar te amando nos meus termos e condições. ainda assim, é assombroso saber que sua existência nesse plano ficou por um triz. você não me pertence, nem quero o contrário. meu sentimento cabe somente a mim e a ninguém mais, nem mesmo a você.
pensando por essa perspectiva, você deveria lamentar mais a minha ausência do que eu a sua.
mas pra você eu sou passado, uma face vultosa, palavras bem escritas e ignoradas. uma pequena provocação quando conveniente. o pedido de socorro indireto. a curva de rio. a insignificância. o escuro intranquilo e indesejável da noite.
e você tem razão.
a faca e o queijo na mão.
e o coração de uma menina estagnada no tempo.
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