as peças dessa porcelana despedaçada e destroçada começam a se encaixar nos pontos que permitem minha reconstrução.
a ilusão teceu em mim maquiavelicamente os véus da crença, confiança, prazer, afeto, ternura, entrega, desejo, lealdade e devoção enquanto escondia todo vazio de uma existência nefasta, destrutiva, putrefata e maligna. com minha permissão, tirou proveito e me desmantelou. me elevou a um céu figurativo pra sem qualquer remorso me atirar num precipício. me destituiu do meu poder. esgotou minha força de vida. me adoeceu e consumiu todas as minhas virtudes.
o mundo tem estado doente, de fato. me incomoda ver a balbúrdia narcísica aplaudida, romantizada e acolhida. o reconhecimento de quem faz do amor palavra vazia e banalizada em imensurável ignorância. os cultivos vazios seja de um rebanho adulador, seja de cegueiras afetivas unilaterais e a manipulação através do conflito e oposição dos iguais em prol da devoção da uma ausência fálica e de excessos ignobil e ludibriante. este cenário em voga me desagrada mortalmente. embora a modernidade seja líquida, ainda falta um longo caminho para voltar a ser água.
aceito o ofício sacro, pelo bem maior. pra que em definitivo este ciclo se encerre. e o existir sem amarras se permita dentro de toda contradição, dualidade e aceitação do que se é, em toda sua {in}utilidade cíclica e vital.
da lama ao lótus, descubro ossos frágeis. como fênix renasço do fogo que me arde e queima. como kintsugi, a liga que me reconecta é forte e indestrutível. como corpo sutil, o benefício do esquecimento e da indiferença ao que foi e fui me apresenta o caminho pra novos sonhos e possibilidades. repenso antigos eus viciados e moldados em barro pra me cultivar na matéria assumidamente caótica advinda do cosmos e dos ventos de bons presságios.
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