a possibilidade de te consumar pode ser fatal, mortal e irreparável.
sinto medo.
eu sinto medo de tudo.
ainda assim, gosto de me atirar em queda livre.
todos os estilhaços da queda me dilacera a pele.
o atrito me machuca e me deforma.
deliro com todas as pulsões de morte mas não mais me limito a elas, consigo atravessar e acessar o pote de ouro que está além do arco íris.
com inabalável calma e vasta sabedoria, você extrai os gemidos e gargalhadas cristalizadas em mim.
me inspira a cantar alto em plenos pulmões.
me dissocia do corpo-espelho pra me elevar à esfera divina.
fico reticente e tímida frente a mim mesma e frente a gigantesca possibilidade de potência que se coloca à minha frente.
oxigenou meu hipotálamo.
fez de mim leve e vazia feito um balão de gás hélio, que só flutua y flutua.
(e esse vazio tem um sentido gostoso, estado meditativo e de graça).
atordoada, tremo em ondas e luz sem intervenções mecânica ou sintética.
meu campo vibracional alcança escalas hiperdimensionadas, potentemente ativadas pela ponta da tua língua alucinógena.
o apetite se destranca do calabouço de mim com vontade de banho de sol e fotossíntese.
não sigo mais semáforos ou sinais convencionais pra trafegar pelas nuances da vida. sou a própria controladora de tráfego e agora são os transeuntes e os acessos que respondem ao meu comando
aos poucos, através de você diminuo e acalmo meus monstros.
mansamente, dobro cada um deles perante si.
acho curioso que os diminua com tanta inteligência e articulação, sem fazer grande esforço e ainda fazendo graça, sem necessariamente desfazer deles.
meus monstros parecem pequenas criaturas indefesas e infantis que na tua presença são abraçados, acolhidos e curados.
e eu, interlocutora dessas pequenas criaturas indomáveis, tenho oportunidade de transcender a animosidade desses seres famintos e alcançar o estado de deusa de mim, que sempre e tanto quis.
gosto quando pega meu aparente excesso de afeto, o simplifica e faz dele algo humano e íntegro, não defeituoso ou exagerado.
gosto quando não me resgata do caos, mas adentra o mesmo comigo, segurando minha mão.
me dá um tesão de vida absurdo e gigantesco cada ocasião em que me acolhe e me dá essa sensação de não estar só, e de que posso confiar e apreciar a tão almejada e nada tediante paz.
você me dá paz!
me desafia a buscar esse lugar, esse porto seguro.
esse lugar onde posso chegar, tirar os sapatos apertados e me despir, jogar as chaves em cima da mesa, pendurar a fantasia pesada e orquestrada de tudo que por instinto ou defesa preciso representar.
ser o demônio desprovido de beleza e vaidade fumando um cigarro na varanda sem o peso de uma existência inteira nas costas.
não preciso agradecer.
será que não?
dizem que a gratidão é algo a ser colocado em prática constantemente.
e genuinamente meu coração vibra esse sentimento e o contentamento de ter a oportunidade da tua presença materializada e manifesta.
você é o que procurei por muito tempo, e minha gratidão parece pequena perto da indescritível sensação de ter te encontrado.
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