terça-feira, 14 de abril de 2026

olhando pro abismo


posso voltar a frequentar a gianini da Vargas.

aos poucos, ele se torna um borrão.

uma lembrança inanimada.

um vazio apático.

dirijo pelas ruas com os olhos marejados.

nós não nos veremos novamente!

a casa que sustentou nossa breve história agora está vazia

escura

com as janelas entreabertas e

uma placa empoeirada de uma imobiliária anunciando que está para alugar.

a atmosfera sagrada em que vivemos, rimos alto, fumamos, tocamos um pro outro, lemos um pro outro, fomos felizes, dengosos, afetuosos e safados se perde nos incontáveis dias que se passaram.

as paredes brancas que testemunharam nosso entrosamento estão agora abandonadas à própria sorte.

o sol que entra pela janela do quarto na primeira hora da manhã não tem mais o trapézio constelado, nem seus cachos dourados pra iluminar.

a pequena sacada que nunca acessamos segue vazia e o pasto de frente que nunca nos testemunhou transando de pé na sacada, minha saia erguida, a mão dele na minha boca pra que não fosse escandalosa e não fizesse eco.

ele nunca mais descerá as escadas pulando pra relaxar o pau pra receber o delivery.

e eu nunca mais subirei aquelas escadas dando a ele a visão sinuosa e tentadora do meu corpo que hoje sequer se recorda da aura magnética de estar completamente apaixonada e entregue.

nossos corpos seguem vivos mas morremos um pro outro.

e hoje essa morte me doeu!


"dust in the wind...

all we are is dust in the wind..."


Nenhum comentário:

primeiro de outubro, 2026

qual é a diferença entre potencial, expectativa e projeção? potencial, foi tudo que vi como possibilidade de se tornar. expectativa, o combu...