terça-feira, 13 de agosto de 2019

Itaim




o relógio corre. estou atrasada. o Uber informa 21 reais. pelo valor, estamos em horário de pico. garganta queimando. parecendo cara em um baile da Vogue sem graça, sem dança e sem música, entre máscaras enrustidas e interações forçadas. dia de sol com vento. faltam cinco minutos pro uber chegar. na minha cabeca minha algoz berra comigo pelo atraso. no meu âmago eu só quero ir embora de tudo. visto azul. mulher veste a cor que quiser, ainda que precise seguir uma etiqueta corporativa e pra mim, entediante. discretamente, esse é meu dedo do meio pra essa bosta de sistema escroto onde a sociedade só fica satisfeita quando estivermos todos catalogados em caixas esterilizadas ou desfalecidos eternamente em caixões cobertos de terra, flores e lágrimas arrependidas de quem não se deu conta do tempo que passa e se esvai. Tempus fugit. meu desejo de morte é ser cremada. minhas cinzas jogadas ao vento, assim eu morro pra vida e posso viver alimentando, ainda que brevemente, esse ecossistema desgastado e surrupiado que eu ajudo a destruir diariamente. minhas cinzas seriam meu pedido de desculpa ao universo, como o sangue que meu ventre expele todo mês e faço questão de devolver ritualisticamente à mãe terra em um pedido de perdão antecipado por foder com tudo. 

uma curiosidade que atestei ontem: cinzas cremadas pesam. elas são claras e tem um volume que não corresponde ao seu peso. carregam os restos materiais de um corpo que sem alma pesa muito. o que seria do corpo sem a alma? e os corpos vivos com almas tão pesadas quanto cinzas de um corpo inabitado? existe tanta magia e conexão pelas entrelinhas e minha alma anda sem sinal entre tantas obrigações e as três ou quatro comidas de rabo que levei por e-mail ontem. me desespero, o estômago dói, choro timidamente e invoco o mantra de que não vou ter medo, não vou ter medo, me recuso a ter medo. estou lutando pra não esquecer de mim e do que me mantem e move minha existência. atrasar cinco minutos é tolerável quando não se deseja nem estar presente? minha conclusão pro dia de hoje observando as pessoas no coffee break é que estamos todos afundando no mesmo barco e não há violinista pra manter etérea a nossa desgraça! 

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