digamos que esteja tudo bem, e que a escrita tem sido um meio eficaz de libertação. mas o que entendi é que o que liberta, de verdade, é o desenho. o traço, a forma, o ruído e o caminhar do lápis ou do papel sem rumo, sem meio e sem fim. o nada que se torna algo. o algo que pode ser qualquer coisa. a dança sinuosa. a ponta de grafite que define. por que não você? por que não por você? por que através do outro? conclusão: criei uma divisória em mim, me subdividindo em duas. a que trabalha e escreve. uma divisão árdua e vitoriosa de onde tantas outras quero criar. me divido melhor e respiro triunfante em meio a sinusite atacada e à baixa umidade do ar como se tivesse debaixo do rio aéreo e pulmonar da Amazônia. me esqueço em paz da escrita científica e da chacal dominadora que me paralisou durante tanto tempo. saio do fundo, emergindo pra superfície, aquele suspiro fundo onde se renasce após um intenso Kumbhaka bandha pranayama. esqueço dos julgamentos e preocupações e escrevo livre, enquanto a caneta dança e rodopia por todo o tablado desse expurgo. livre como no fundo eu deveria (ou poderia) ser. a bússola cardíaca indica que o caminho é correto. meus gatos me guardam pelos arredores. mente plena, corpo em recuperação. Andrew Solomon disse que o contrário de depressão é vitalidade, e fiquei com isso marcado. meu organismo reage e sinto que tenho chance. não sou só minha rotina exaustiva, por ora. sou uma rotina cansada buscando um movimento inversamente proporcional a favorecer qualquer outra coisa que me traga prazer. seja rever um anime de infância ou cantar Caetano na minha cabeça em capela " esse papo já tá qualquer coisa, você já tá pra lá de Marrakesh". " o contrário de depressão é vitalidade". não tenho preguiça de pensar em mim amanhã madrugando e excedendo meu tempo. não tenho medo. não ter medo é libertador. não ter medo e escrever, que bela combinacão. não ter medo, escrever e voltar a ler (Zaratustra tem 526 páginas, oh gee, mas não tenho preguiça). entre chatices corporativas e glossários hoteleiros, vou empoderando minha essência e reflorestando meu jardim interno. handmaid's me chama, episódio 12, temporada 3 e esse fascínio com Kate Bush e suas músicas que conversam tão bem com a série. mas acima de tudo, meu amuleto de ontem sumiu. caiu do meu umbigo e se abriu no chão, e nisso eu sinto que o oráculo tem urgência. e a vida também tem e não há tempo pra morrer agora, ou pelo menos não hoje. e o calendário das 13 luas e o Kin do dia, "mão magnética azul" não apresenta nada menos que constatações. como vivemos com o calendário gregoriano até hoje? como sou aquariana com ascendente em aries e lua em virgem com tanto orgulho? tudo se desfaz como as bolhinhas refrescantes de um delicioso Yellow Tail, depois de dançar na língua e explodir na acidez da boca. que vida bela, breve e efêmera, a de um bom vinho frisante rosé.
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
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2 comentários:
Hummm... Sem tempo pra me matar. Mas me esforçando bastante para isso. Você é bem mrlhor do que eu.
A mim falta coragem e força. Que me mantém covardemente viva e resistente. Não se trata de ser melhor ou pior, babe, somos universos paralelos estabelecendo contato enquanto não explodimos ou não dizimamos algo à nossa frente!
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