terça-feira, 6 de outubro de 2020

memórias baseadas em divagações reais

 




{quilombo}

silêncio,eu tomei minha decisão!

fechar os olhos e existir em uníssono com o todo. sentada no topo de uma pedra, mergulhada nos braços daquele corpo que tanto amei. 

aura mística, eu lembro da sensação de minha entrega de olhos voluntariamente fechados. de estar em terreno incauto. da vegetação testemunha de nós dois. 

éramos centro. 

éramos nada. 

e era tudo. 

estar inteiro, divididos em dois. 

lembro da fumaça do cigarro que o invadia pra sugar o ar e a vida dos teus pulmões pra integrá-lo à existência. olha que nessa época a gente nem sabia respirar. 

lembro dos cabelos castanhos e na ocasião longos e do quanto eu gostava de enrolá-los com meus dedos.

eu inclusive pintei esse evento com minhas maculadas mãos já que não existiram registros físicos do que fomos. 

esse registro se perdeu, junto com aquele outro que fiz em tamanho considerável dele na calada da noite pela 13 de maio fumando um cigarro, com seus passos característicos e ritmados, passando em frente a casa de tijolos. 

deve ter sido uma das últimas vezes que o vi, e uma das primeiras que comecei a observá-lo sem mais integrar a sua vida, enquanto essas micro partículas dava material pra criar um universo inteiro dele pra mim.


talvez eu tenha tido um entre tantos acessos de raiva. nenhuma das duas pinturas estavam concluídas. eu sempre querendo esquecer o que por contradição meu coração e mente insistem em lembrar e me manter cativa. 

hoje escrevo pra que em alguns séculos à frente alguém encontre esse registro convertido em zeros e uns e talvez se recorde de como era sentir afeto por algo que algum dia foi vivo. ou da sensação, caso tudo tenha sido uma grande divagação. 

na verdade, escrevo pra que eu não me esqueça de como foi reviver essa memória hoje. ela pode ser uma estrela explodindo uma última vez pra ressurgir diferente amanhã. 

ou pode não voltar, nunca mais.

por algum motivo eu me lembrei. 

e não quero esquecer.

de novo.


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