quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

bifásica


enquanto James Blake canta "retrograde"

meus olhos vão transbordando de água salgada,

inundando todo meu pavimento ocular.


a visão fica turva e densa, 

até que as lágrimas roliças rompam com as barragens 

e desague pelos meus poros.


"estou só.

sempre estive,

sempre estarei!"


essa constatação, dói!


não importa se me falta ar

com tanta gente no mesmo ambiente.


não importa quantos corpos repousem

à minha direita ou esquerda.


não importa o quão disposta

e pronta eu esteja.


não importa?


enquanto hiberno

no hemisfério 

obscuro de mim,

reflito:


se o que está por vir 

é muito melhor do que o que passou, 

desejo que não demore muito 

pra acontecer e pra chegar.


porque o que passou recentemente, 

foi muito muito bom!


como bem canta Lulu:

"a vida vem em ondas como o mar,

num indo e vindo infinito."


aprendo e me empenho

em experimentar e honrar os ciclos.

a me entregar

com e sem medo,

dependendo da ocasião.


eu saio melhor de toda essa jornada

do que entrei.

mais consciente das minhas limitações, 

amistosa com minhas ações

e convicta das minhas escolhas, 

acertadas ou não.


mais disposta

a estar comigo 

e com quem mais quiser.


melhor resolvida

com o tempo

de gozar

e de doer.


ainda que não equalizada

entre essas duas polaridades.

só sofrer,

exclusivamente sofrer,

já deixou de ser opção.


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